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População de baleias-jubarte passou de 1,5 mil para 35 mil no Brasil e Alagoas volta a ser berçário da espécie

Com crescimento de mais de 20 vezes desde a década de 1990, cetáceos retomam rotas migratórias históricas no Nordeste, estimulam o ecoturismo sustentável e demandam regras rígidas de preservação

População de baleias-jubarte passou de 1,5 mil para 35 mil no Brasil e Alagoas volta a ser berçário da espécie
Por Equipe Cães&Gatos
4 de novembro de 2026

A população de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) no Brasil superou a marca de 35 mil indivíduos, alcançando um contingente mais de 20 vezes superior ao registrado no início da década de 1990, quando restavam apenas cerca de 1,5 mil animais na costa do país.

A recuperação histórica é resultado direto da proibição definitiva da caça comercial em águas brasileiras, oficializada em 1987, somada ao trabalho ininterrupto de pesquisa, monitoramento e conservação desenvolvido pelo Instituto Baleia Jubarte.

Com o expressivo crescimento demográfico, os cetáceos voltaram a ocupar gradativamente rotas migratórias e habitats que utilizavam no passado.

Nesse processo de recolonização, o litoral de Alagoas reassumiu um papel fundamental no ciclo de vida da espécie, consolidando-se como área essencial para o acasalamento, a gestação e o nascimento dos filhotes, além de funcionar como rota de passagem para animais que seguem em direção a outras regiões do Nordeste.

Segundo o biólogo e professor Cláudio Sampaio, o “Buia”, do Laboratório de Ictiologia e Conservação (LIC) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), as características da costa alagoana reúnem fatores ideais para os animais recém-nascidos.

“O litoral alagoano foi historicamente uma área importante para as jubartes. Nossas águas são rasas, quentes e têm poucos predadores naturais, como orcas e grandes tubarões. Elas servem tanto de local de reprodução, cópula, gestação e nascimentos, quanto como corredor para as que migram aos estados mais ao norte. Costumo dizer que todos os filhotes recém-nascidos que registramos aqui são alagoanos”, destaca.

Monitoramento no Litoral Sul e aumento de avistamentos

Para cumprir seu ciclo biológico, as baleias-jubarte realizam deslocamentos anuais de quase 5 mil quilômetros entre as áreas ricas em alimento nas águas geladas da Antártica e as regiões tropicais do Brasil.

No litoral alagoano, a temporada de maior presença compreende os meses de julho a outubro, atingindo o pico de concentração em agosto e setembro, período no qual ocorrem o acasalamento e a amamentação dos filhotes.

A proximidade dos animais em relação à costa tornou os encontros rotineiros para pescadores e moradores locais. Na Praia do Francês, os saltos das jubartes chegam a ser acompanhados da areia por banhistas. Na região do Pontal do Peba, pescadores relatam contatos frequentes com grupos de animais em navegação.

Cientificamente, a presença dos mamíferos marinhos é acompanhada por expedições coordenadas pela Ufal entre o Pontal do Peba e a foz do Rio São Francisco.

Durante os cruzeiros de pesquisa, a equipe utiliza a fotoidentificação da face ventral da cauda dos animais — padrão que funciona como uma impressão digital única de cada indivíduo — e gravações bioacústicas das vocalizações emitidas pelos machos.

Em expedições recentes, o laboratório chegou a registrar 20 jubartes, sendo seis filhotes, em apenas quatro horas e meia de navegação. A costa alagoana também serve de passagem eventual para outras espécies de cetáceos, como baleias-minke, baleias-fin, cachalotes e baleias-bicudas.

baleias
Águas mornas e protegidas de predadores fazem de Alagoas um berçário natural da espécie. (Foto: Cláudio Sampaio / UFAL Penedo)

Ecoturismo responsável, legislação e cuidados com encalhes

O reaparecimento contínuo das baleias impulsiona o potencial do turismo de observação (whale watching) em localidades costeiras como Pontal do Peba, Praia do Francês, Maceió e Maragogi, despontando como alternativa de geração de renda durante o inverno.

A atividade já possui modelo consolidado em Caravelas, no sul da Bahia, onde a movimentação econômica em agosto chega a superar a do verão, oferecendo nova fonte de sustento a barqueiros e condutores.

Especialistas reforçam, contudo, que o turismo não pode se converter em perseguição ou estresse aos animais. Pela legislação brasileira, molestar cetáceos de forma deliberada configura crime federal.

As normas de avistamento determinam distância mínima de 100 metros com motor ligado em neutro, sendo expressamente proibido encurralar animais, cortar a trajetória de deslocamento ou interferir na dinâmica entre mães e filhotes.

Paralelamente ao crescimento populacional, aumentou também a ocorrência de encalhes de espécimes debilitados ou mortos na faixa de areia. Em qualquer ocorrência do tipo, a população não deve tocar no animal nem tentar devolvê-lo à água por iniciativa própria, devido ao risco de lesões físicas graves e transmissão de patógenos.

O protocolo exige isolar a área e acionar imediatamente órgãos especializados para resgate ou coleta científica, como o Instituto Biota de Conservação, a Ufal, o IMA-AL, o ICMBio ou o Ibama.

Fonte: ANDA, adaptado pela equipe Cães&Gatos.