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No Animal Health 2026, especialista destaca estratégias para prevenir dor persistente após cirurgias em cães e gatos

Durante palestra no evento, Denise Fantoni abordou como fatores perioperatórios, manejo anestésico e escolha de fármacos influenciam a cronificação da dor em pacientes veterinários

No Animal Health 2026, especialista destaca estratégias para prevenir dor persistente após cirurgias em cães e gatos
Por Melissa Marques
12 de março de 2026

A prevenção da dor persistente após procedimentos cirúrgicos foi tema de uma das palestras apresentadas no Animal Health 2026 pela médica-veterinária Denise Fantoni, professora da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em patologia, cirurgia e anestesiologia animal.

Durante a apresentação, a especialista discutiu os principais fatores envolvidos na cronificação da dor e destacou que o controle adequado da analgesia e da estabilidade intraoperatória é essencial para reduzir esse risco.

“A dor pós-operatória envolve múltiplos níveis da via nociceptiva e, quando não é adequadamente controlada, pode induzir alterações que favorecem a cronificação”, explicou.

Dor pré-operatória e intensidade do quadro influenciam o prognóstico

Um dos fatores mais relevantes para o desenvolvimento de dor persistente é a presença de dor antes da cirurgia. 

Segundo dados apresentados durante a palestra, pacientes que já apresentam dor no período pré-operatório têm maior risco de evoluir para quadros crônicos após o procedimento.

A intensidade da dor nas primeiras fases da recuperação também desempenha papel importante. 

Estudos indicam que pacientes com dor intensa no pós-operatório imediato e com resolução mais lenta apresentam maior probabilidade de cronificação.

Entre os dados discutidos pela especialista, um levantamento com pacientes submetidos a cirurgias eletivas mostrou que aqueles cuja dor intensa persistiu por mais tempo nos primeiros dias após o procedimento tiveram maior risco de desenvolver dor crônica.

Estresse e ambiente cirúrgico também podem contribuir

Além dos fatores fisiológicos, aspectos relacionados ao estresse também podem interferir na evolução da dor. O ambiente hospitalar, a separação do responsável e a exposição a estímulos desconhecidos podem aumentar a resposta ao estresse em cães e gatos.

De acordo com Fantoni, o estresse pré-operatório pode favorecer a ativação de processos inflamatórios e contribuir para a sensibilização central, mecanismo que está associado à perpetuação da dor.

Entre os fatores citados durante a palestra que podem aumentar o estresse no ambiente cirúrgico estão ambiente estranho, presença de pessoas desconhecidas, odores diferentes e restrições físicas, além do contato com outros animais.

No Animal Health 2026, especialista destaca estratégias para prevenir dor persistente após cirurgias em cães e gatos
Situações estressantes no ambiente hospitalar podem intensificar a resposta à dor em pacientes veterinários (Foto: Revista Cães & Gatos)

Papel da anestesia na prevenção da dor persistente

Durante a apresentação, a especialista destacou que o manejo anestésico tem papel central na prevenção da cronificação da dor.

Entre as estratégias recomendadas estão a analgesia multimodal, a anestesia regional com bloqueios locorregionais, o controle adequado da inflamação cirúrgica e a manutenção da estabilidade nociceptiva durante o procedimento.

Segundo Fantoni, essas medidas ajudam a reduzir o estímulo nociceptivo e a evitar alterações no sistema nervoso que podem perpetuar a dor.

“A analgesia multimodal é fundamental. Nenhum fármaco isolado muda a evolução da dor crônica pós-operatória”, ressaltou.

Fármacos podem auxiliar na prevenção da cronificação

A palestrante também discutiu o papel de diferentes classes farmacológicas no controle da dor perioperatória e na prevenção da sensibilização central.

Entre os medicamentos com potencial papel preventivo estão cetamina, lidocaína intravenosa, anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), opioides e técnicas de anestesia regional.

O objetivo dessas estratégias é reduzir o estímulo nociceptivo durante o procedimento e evitar alterações na plasticidade neural que podem contribuir para a cronificação da dor.

Dados de revisões sistemáticas e metanálises apresentados durante a palestra indicam que a cetamina pode apresentar benefício moderado na prevenção de dor crônica pós-cirúrgica, enquanto a lidocaína intravenosa pode ter efeito preventivo mais consistente em determinados contextos clínicos.

Gabapentinoides ainda geram controvérsia

Outro grupo de fármacos discutido durante a apresentação foram os gabapentinoides, como gabapentina e pregabalina. 

Esses medicamentos atuam na modulação da sensibilização central ao reduzir a liberação de neurotransmissores excitatórios.

Embora possam contribuir para a redução da dor pós-operatória e do consumo de opioides, a evidência clínica ainda apresenta resultados inconsistentes.

Segundo Fantoni, os gabapentinoides podem ser úteis principalmente em pacientes com maior risco de sensibilização central ou dor neuropática, mas não devem substituir protocolos analgésicos completos.

“Eles não atuam isoladamente e devem sempre fazer parte de uma estratégia de analgesia multimodal”, explicou.

Interpretação clínica das evidências

Ao final da apresentação, Fantoni destacou que a prevenção da dor crônica pós-cirúrgica depende da combinação de estratégias anestésicas, farmacológicas e de manejo do paciente.

Entre as evidências discutidas durante a palestra, análises comparativas sugerem que a lidocaína intravenosa pode apresentar efeito preventivo mais consistente, enquanto a cetamina tende a apresentar benefício moderado. Já os gabapentinoides demonstram efeito menor e dependente do contexto cirúrgico.

De acordo com a especialista, a abordagem ideal deve considerar o tipo de cirurgia, o perfil do paciente e os fatores de risco individuais.

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