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Inovação e Mercado Pet Food

Rastreabilidade na indústria de pet food ganha espaço na gestão da qualidade

Da origem das matérias-primas à distribuição, controle de lotes permite identificar a trajetória dos ingredientes e agir com mais rapidez diante de desvios

Rastreabilidade na indústria de pet food ganha espaço na gestão da qualidade
Por Stéfani Campos Chagas
21 de outubro de 2026

A rastreabilidade na indústria de pet food vem ganhando espaço como uma ferramenta estratégica de gestão da qualidade.

Mais do que registrar lotes, o acompanhamento permite relacionar a origem das matérias-primas aos produtos fabricados, aos controles realizados durante o processo e à distribuição dos alimentos.

Para a médica-veterinária Érica Vidal, que atua em Nutrologia, Dermatologia e consultoria para empresas do setor de pet food, a complexidade da cadeia de fornecimento aumentou a necessidade de obter informações precisas sobre os ingredientes e os produtos.

“A rastreabilidade deixou de ser vista apenas como um registro de lotes para se tornar parte da gestão da qualidade. Hoje, queremos saber não só qual ingrediente entrou na fábrica, mas de onde veio, como foi avaliado, em quais produtos foi usado e para onde esses produtos seguiram”, explica.

Da matéria-prima ao produto final

Uma cadeia de rastreabilidade eficiente precisa permitir que a indústria reconstrua o caminho percorrido pelos ingredientes durante a fabricação. Isso envolve informações sobre fornecedores, lotes, análises, armazenamento, processamento e distribuição.

Segundo Érica, cada lote de matéria-prima deve estar relacionado ao fornecedor, às análises realizadas no recebimento, às condições de armazenamento e à ordem de produção em que foi utilizado.

Na sequência, também precisam ser acompanhados os parâmetros do processo, os resultados do controle de qualidade, a embalagem, a validade, o lote final e a distribuição.

“O objetivo é conseguir refazer o caminho nos dois sentidos: do ingrediente ao produto e do produto à sua origem”, afirma.

Esse tipo de controle também ganha importância quando surge uma suspeita de alteração em determinado alimento.

Com os registros organizados, a empresa consegue verificar quais produtos utilizaram determinada matéria-prima, quais lotes foram produzidos e se outros alimentos passaram pelo mesmo equipamento ou compartilharam algum insumo.

Rastrear lotes
Rastrear lotes e matérias-primas é fundamental para a gestão da qualidade e permite respostas rápidas e precisas diante de eventuais desvios de produção (Foto: Reprodução)

Escalar uma formulação exige controle

Transformar uma formulação desenvolvida em laboratório ou em pequena escala em um produto fabricado continuamente em grandes volumes é outro desafio para a indústria de pet food.

Na avaliação da médica-veterinária, o principal ponto é conseguir reproduzir, de maneira consistente, aquilo que funcionou em uma escala menor.

Na produção industrial, fatores como capacidade dos equipamentos, tempo de mistura, temperatura, umidade, processamento, perdas e variações entre lotes de ingredientes podem interferir no resultado.

“A formulação precisa manter o perfil nutricional previsto, a segurança, a estabilidade e a aceitação pelos animais mesmo quando é produzida continuamente e em grande volume”, pontua.

Por isso, o processo de escalonamento pode exigir ajustes. Um ingrediente que apresentou determinado comportamento em uma etapa de desenvolvimento pode reagir de outra maneira diante das condições de uma linha industrial.

Mudanças de umidade, temperatura ou tempo de processamento, por exemplo, podem interferir em características como textura, estabilidade, palatabilidade e disponibilidade de nutrientes. Nesses casos, alterações na formulação ou no processo podem ser necessárias, desde que tecnicamente justificadas e novamente validadas.

“Escalar a produção não deve significar perder o objetivo nutricional que orientou a formulação”, ressalta.

Qualidade dos ingredientes influencia o resultado

A padronização também depende das características das matérias-primas utilizadas. De acordo com Érica, ingredientes com a mesma denominação podem apresentar diferenças importantes em parâmetros como umidade, concentração de nutrientes, granulometria, digestibilidade e qualidade microbiológica.

Essas variações podem afetar tanto o processamento industrial quanto o resultado nutricional do alimento. Dessa forma, repetir apenas a quantidade prevista de cada ingrediente na formulação não garante, por si só, que o produto final terá exatamente as mesmas características.

“É preciso trabalhar com especificações, analisar os lotes recebidos e verificar se o produto final continua atendendo ao que foi formulado”, esclarece.

Nesse cenário, a qualificação e o acompanhamento dos fornecedores passam a integrar a estratégia de controle.

Entre as informações que devem ser rastreadas estão a identificação do fornecedor e do fabricante, origem e lote da matéria-prima, datas de produção e recebimento, resultados de análises, condições de transporte e armazenamento e eventuais não conformidades.

Rastreabilidade ajuda na resposta a desvios

Quando um problema de segurança ou qualidade é identificado, a rastreabilidade pode ajudar a delimitar a extensão da ocorrência. Os registros permitem cruzar informações sobre matérias-primas, lotes produzidos, equipamentos e produtos distribuídos.

Esse mapeamento contribui para investigar a causa do desvio e identificar quais produtos podem estar envolvidos. Quando necessário, também facilita a localização dos lotes que chegaram ao mercado para a realização de ações de recolhimento.

A ausência ou fragilidade desses registros, por outro lado, pode dificultar a identificação da origem do problema e aumentar a incerteza sobre quais produtos foram afetados.

Além dos impactos relacionados à segurança e à qualidade, a falta de informações também pode comprometer a comunicação com médicos-veterinários e responsáveis pelos animais.

Para Érica, a transparência está diretamente relacionada à capacidade de comprovar informações e responder rapidamente quando algo foge do padrão.

Acompanhamento de ponta
Acompanhamento de ponta a ponta na fabricação de pet food garante padrão nutricional, segurança de insumos e transparência ao mercado (Foto: Reprodução)

Integração entre áreas é essencial

Para conciliar inovação, viabilidade industrial, padronização e qualidade nutricional, a profissional defende que diferentes áreas participem do desenvolvimento desde as etapas iniciais.

“Uma ideia inovadora precisa ser testada com matérias-primas disponíveis, em equipamento compatível com a escala pretendida e com critérios claros de segurança e desempenho nutricional”, sustenta.

Nesse processo, áreas como nutrição, qualidade, compras e produção precisam atuar de maneira integrada. Depois que o produto chega à fabricação, o acompanhamento lote a lote permite identificar desvios e tomar decisões baseadas nos dados obtidos durante a produção.

A perspectiva também reforça que a formulação não deve ser analisada de maneira isolada.

A disponibilidade e a variabilidade das matérias-primas, as características dos equipamentos e as condições de processamento fazem parte da equação necessária para transformar uma proposta nutricional em um produto estável e reproduzível em escala industrial.

Para avançar na rastreabilidade da cadeia de pet food, Érica aponta a necessidade de integrar melhor as informações geradas nas diferentes etapas do processo, desde os fornecedores até a distribuição.

Entre os caminhos estão registros padronizados e de fácil consulta, qualificação contínua dos fornecedores e maior verificação das matérias-primas utilizadas na fabricação.

A integração desses dados pode permitir que a indústria tenha uma visão mais completa da trajetória de cada ingrediente e produto, além de facilitar a identificação de possíveis desvios.

“Transparência, para mim, é oferecer informação verificável e ter capacidade de agir rapidamente quando algo sai do padrão”, conclui.