Mudanças repentinas de comportamento em cães e gatos costumam preocupar os responsáveis. Irritabilidade, ansiedade, medo excessivo e até agressividade podem estar relacionados a diversos fatores, incluindo dor, doenças, ambiente e experiências anteriores. Nos últimos anos, porém, uma área de pesquisa tem ganhado destaque: a possível influência da saúde intestinal sobre o comportamento dos animais.
A chamada conexão entre intestino e cérebro vem sendo estudada tanto na Medicina humana quanto na veterinária. Embora ainda existam muitas perguntas sem resposta, profissionais acreditam que alterações na microbiota intestinal podem influenciar emoções e comportamentos.
Segundo Larissa Nonato de Camargo Dembowski, médica-veterinária especializada em Gastroenterologia, integrante da equipe FeroGastro e membro da diretoria da Associação Brasileira de Gastroenterologia Animal (Abraga), e Felipe Romano, médico-veterinário, responsável técnico da FeroGastro, mestre e doutor em Patologia e sócio-fundador da Abraga, muitas evidências estão apontando para essa relação.
“Cada vez mais acreditamos que existem relações entre alterações comportamentais, como ansiedade, depressão e mudanças de emoções, por conta de problemas gastrointestinais. Mas, como cães e gatos não são seres verbais, tudo isso é mais subjetivo do que em seres humanos e requer mais tempo de acompanhamento para tirarmos conclusões”, explicam os médicos-veterinários.
Saúde intestinal e comportamento estão conectados
Embora a agressividade não deva ser atribuída automaticamente a problemas intestinais, os veterinários destacam que o organismo funciona de maneira integrada e que alterações em um sistema podem repercutir em outros.
Fatores como dor abdominal, desconforto digestivo, inflamações e desequilíbrios da microbiota podem afetar o bem-estar dos animais e contribuir para mudanças comportamentais. Da mesma forma, situações de estresse e ansiedade podem impactar o funcionamento gastrointestinal.
Os veterinários ressaltam que a agressividade possui múltiplas causas e pode estar relacionada também a fatores genéticos, ambientais, hormonais, neurológicos e experiências vividas pelo animal. O que as pesquisas sugerem é que a saúde intestinal pode ser uma das peças desse complexo quebra-cabeça.

O que é o eixo intestino-cérebro?
O chamado eixo intestino-cérebro é um sistema de comunicação bidirecional entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso. Essa interação ocorre por meio de neurotransmissores, hormônios, células imunológicas e microrganismos presentes no intestino.
“O eixo intestino-cérebro é um entendimento onde a fisiologia e a dinâmica do organismo com o ambiente externo justificam interações. O que acontece no ambiente e altera as emoções pode gerar estímulos bons ou ruins para o funcionamento gastrointestinal. Da mesma forma, doenças do trato gastrointestinal podem piorar ou causar mudanças de comportamento”, afirmam.
Na prática, isso significa que emoções podem influenciar o intestino e que alterações intestinais também podem impactar o comportamento e a qualidade de vida dos pets.
Disbiose pode influenciar o humor dos pets
Um dos principais focos de estudo atualmente é a disbiose, condição caracterizada pelo desequilíbrio das bactérias presentes no intestino.
“A disbiose também está sendo estudada na Medicina do comportamento e na Neurologia. Tudo isso tem muito a ver com genética, absorção de nutrientes, metabolismo, elementos como vitaminas, triptofano e hormônios. Há interferência direta da composição da alimentação, que vai causar impacto no sistema nervoso central”, explicam Larissa e Felipe.

Os profissionais também alertam que comportamentos frequentemente rotulados apenas como estereotipia, “manha” ou estresse podem, na verdade, sinalizar problemas como refluxo gastrointestinal ou quadros de parorexia. Os responsáveis devem ficar atentos a sinais como:
- Mudanças abruptas no hábito de sono;
- Agressividade repentina e irritação;
- Lambedura compulsiva do chão, de objetos ou de partes do corpo;
- Ofegância sem propósito e vocalizações inusitadas;
- Apatia isolada, medo, flatulências excessivas ou constipação.
Como proteger a microbiota intestinal de cães e gatos
A alimentação é um dos fatores mais importantes para a manutenção da saúde intestinal. Segundo os médicos-veterinários, dietas equilibradas e adequadas às necessidades individuais de cada animal podem contribuir para o equilíbrio da microbiota e para o bem-estar geral.

“Certamente a alimentação interfere em tudo aquilo que fica à disposição do organismo como nutrientes e elementos do metabolismo. É um assunto complexo e não há como generalizar, pois tudo precisa ser personalizado”, destacam.
Além disso, probióticos e prebióticos podem atuar como coadjuvantes em alguns casos, embora ainda sejam necessários mais estudos para determinar quais cepas oferecem os melhores resultados quando o objetivo é influenciar aspectos comportamentais.
Outras medidas importantes incluem evitar o uso indiscriminado de antibióticos, controlar a obesidade, prevenir doenças parasitárias e manter o acompanhamento veterinário regular.
Para Larissa e Felipe, o tema ainda apresenta muitos desafios, mas já existem indícios suficientes para justificar a atenção crescente da Medicina Veterinária ao eixo intestino-cérebro.
“Acreditamos que existe conexão entre sistema nervoso, ambiente externo e microbiota gastrointestinal, e que tudo isso é influenciado pela dieta, pelos estímulos do meio e até mesmo pela genética do paciente. Porém, ainda não existe evidência científica robusta de tratamentos bem delineados já recomendados para o eixo cérebro-intestino, embora conheçamos hipóteses muito plausíveis sobre fatores que podem prejudicar essa relação”, concluem.
FAQ sobre saúde intestinal e agressividade em cães e gatos
A saúde intestinal pode influenciar o comportamento e causar agressividade?
Sim. O desequilíbrio intestinal (disbiose) altera o metabolismo de elementos essenciais como o triptofano e hormônios, impactando o sistema nervoso central. O desconforto físico e a dor também fazem o animal mudar o comportamento para manifestar o incômodo.
O uso de probióticos ajuda a melhorar o comportamento do pet?
Eles são excelentes coadjuvantes e podem colaborar em quadros de ansiedade, depressão e mudanças de comportamento sem causa conhecida, além de auxiliarem no suporte a condições neurológicas, como a epilepsia idiopática. No entanto, exames e indicação veterinária são fundamentais para definir o uso.
Como os responsáveis podem evitar a disbiose intestinal nos animais?
As principais condutas são evitar o uso de antibióticos sem motivo real, prevenir a obesidade e impedir gatilhos inflamatórios crônicos, tratando rapidamente doenças parasitárias, pancreáticas ou endócrinas (como a diabetes).
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