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Saúde intestinal pode influenciar a agressividade de cães e gatos? Entenda a relação

Médicos-veterinários explicam como a saúde intestinal pode afetar o comportamento dos animais

Saúde intestinal pode influenciar a agressividade de cães e gatos? Entenda a relação
Por Stéfani Campos Chagas
26 de junho de 2026

Mudanças repentinas de comportamento em cães e gatos costumam preocupar os responsáveis. Irritabilidade, ansiedade, medo excessivo e até agressividade podem estar relacionados a diversos fatores, incluindo dor, doenças, ambiente e experiências anteriores. Nos últimos anos, porém, uma área de pesquisa tem ganhado destaque: a possível influência da saúde intestinal sobre o comportamento dos animais.

A chamada conexão entre intestino e cérebro vem sendo estudada tanto na Medicina humana quanto na veterinária. Embora ainda existam muitas perguntas sem resposta, profissionais acreditam que alterações na microbiota intestinal podem influenciar emoções e comportamentos.

Segundo Larissa Nonato de Camargo Dembowski, médica-veterinária especializada em Gastroenterologia, integrante da equipe FeroGastro e membro da diretoria da Associação Brasileira de Gastroenterologia Animal (Abraga), e Felipe Romano, médico-veterinário, responsável técnico da FeroGastro, mestre e doutor em Patologia e sócio-fundador da Abraga, muitas evidências estão apontando para essa relação.

“Cada vez mais acreditamos que existem relações entre alterações comportamentais, como ansiedade, depressão e mudanças de emoções, por conta de problemas gastrointestinais. Mas, como cães e gatos não são seres verbais, tudo isso é mais subjetivo do que em seres humanos e requer mais tempo de acompanhamento para tirarmos conclusões”, explicam os médicos-veterinários.

Saúde intestinal e comportamento estão conectados

Embora a agressividade não deva ser atribuída automaticamente a problemas intestinais, os veterinários destacam que o organismo funciona de maneira integrada e que alterações em um sistema podem repercutir em outros.

Fatores como dor abdominal, desconforto digestivo, inflamações e desequilíbrios da microbiota podem afetar o bem-estar dos animais e contribuir para mudanças comportamentais. Da mesma forma, situações de estresse e ansiedade podem impactar o funcionamento gastrointestinal.

Os veterinários ressaltam que a agressividade possui múltiplas causas e pode estar relacionada também a fatores genéticos, ambientais, hormonais, neurológicos e experiências vividas pelo animal. O que as pesquisas sugerem é que a saúde intestinal pode ser uma das peças desse complexo quebra-cabeça.

gatos e cães
Estudos mostram que o desequilíbrio intestinal pode afetar o humor e o comportamento de cães e gatos. (Foto: Reprodução)

O que é o eixo intestino-cérebro?

O chamado eixo intestino-cérebro é um sistema de comunicação bidirecional entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso. Essa interação ocorre por meio de neurotransmissores, hormônios, células imunológicas e microrganismos presentes no intestino.

“O eixo intestino-cérebro é um entendimento onde a fisiologia e a dinâmica do organismo com o ambiente externo justificam interações. O que acontece no ambiente e altera as emoções pode gerar estímulos bons ou ruins para o funcionamento gastrointestinal. Da mesma forma, doenças do trato gastrointestinal podem piorar ou causar mudanças de comportamento”, afirmam.

Na prática, isso significa que emoções podem influenciar o intestino e que alterações intestinais também podem impactar o comportamento e a qualidade de vida dos pets.

Disbiose pode influenciar o humor dos pets

Um dos principais focos de estudo atualmente é a disbiose, condição caracterizada pelo desequilíbrio das bactérias presentes no intestino.

“A disbiose também está sendo estudada na Medicina do comportamento e na Neurologia. Tudo isso tem muito a ver com genética, absorção de nutrientes, metabolismo, elementos como vitaminas, triptofano e hormônios. Há interferência direta da composição da alimentação, que vai causar impacto no sistema nervoso central”, explicam Larissa e Felipe.

Larissa Nonato de Camargo Dembowski, médica-veterinária especializada em Gastroenterologia, integrante da equipe FeroGastro e membro da diretoria da Abraga (Foto: Arquivo Pessoal)

Os profissionais também alertam que comportamentos frequentemente rotulados apenas como estereotipia, “manha” ou estresse podem, na verdade, sinalizar problemas como refluxo gastrointestinal ou quadros de parorexia. Os responsáveis devem ficar atentos a sinais como:

  • Mudanças abruptas no hábito de sono;
  • Agressividade repentina e irritação;
  • Lambedura compulsiva do chão, de objetos ou de partes do corpo;
  • Ofegância sem propósito e vocalizações inusitadas;
  • Apatia isolada, medo, flatulências excessivas ou constipação.

Como proteger a microbiota intestinal de cães e gatos

A alimentação é um dos fatores mais importantes para a manutenção da saúde intestinal. Segundo os médicos-veterinários, dietas equilibradas e adequadas às necessidades individuais de cada animal podem contribuir para o equilíbrio da microbiota e para o bem-estar geral.

Felipe Romano
Felipe Romano, médico-veterinário, responsável técnico da FeroGastro, mestre e doutor em Patologia e sócio-fundador da Abraga (Foto: Arquivo Pessoal)

“Certamente a alimentação interfere em tudo aquilo que fica à disposição do organismo como nutrientes e elementos do metabolismo. É um assunto complexo e não há como generalizar, pois tudo precisa ser personalizado”, destacam.

Além disso, probióticos e prebióticos podem atuar como coadjuvantes em alguns casos, embora ainda sejam necessários mais estudos para determinar quais cepas oferecem os melhores resultados quando o objetivo é influenciar aspectos comportamentais.

Outras medidas importantes incluem evitar o uso indiscriminado de antibióticos, controlar a obesidade, prevenir doenças parasitárias e manter o acompanhamento veterinário regular.

Para Larissa e Felipe, o tema ainda apresenta muitos desafios, mas já existem indícios suficientes para justificar a atenção crescente da Medicina Veterinária ao eixo intestino-cérebro.

“Acreditamos que existe conexão entre sistema nervoso, ambiente externo e microbiota gastrointestinal, e que tudo isso é influenciado pela dieta, pelos estímulos do meio e até mesmo pela genética do paciente. Porém, ainda não existe evidência científica robusta de tratamentos bem delineados já recomendados para o eixo cérebro-intestino, embora conheçamos hipóteses muito plausíveis sobre fatores que podem prejudicar essa relação”, concluem.

FAQ sobre saúde intestinal e agressividade em cães e gatos

A saúde intestinal pode influenciar o comportamento e causar agressividade?

Sim. O desequilíbrio intestinal (disbiose) altera o metabolismo de elementos essenciais como o triptofano e hormônios, impactando o sistema nervoso central. O desconforto físico e a dor também fazem o animal mudar o comportamento para manifestar o incômodo.

O uso de probióticos ajuda a melhorar o comportamento do pet?

Eles são excelentes coadjuvantes e podem colaborar em quadros de ansiedade, depressão e mudanças de comportamento sem causa conhecida, além de auxiliarem no suporte a condições neurológicas, como a epilepsia idiopática. No entanto, exames e indicação veterinária são fundamentais para definir o uso.

Como os responsáveis podem evitar a disbiose intestinal nos animais?

As principais condutas são evitar o uso de antibióticos sem motivo real, prevenir a obesidade e impedir gatilhos inflamatórios crônicos, tratando rapidamente doenças parasitárias, pancreáticas ou endócrinas (como a diabetes).

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