Opções
Clínica e Nutrição Artigos revista

Enriquecimento ambiental e cortisol fecal em gatos

O nível de cortisol fecal pode ser uma tendência para avaliar o bem-estar em gatos domésticos

Enriquecimento ambiental e cortisol fecal em gatos
Por Equipe Cães&Gatos
3 de fevereiro de 2026

O processo de domesticação dos gatos foi demorado e muito trabalhoso, como citado por Bradshaw (2018). Contudo, apenas recentemente a relação humano-gato tornou-se objeto de estudos. 

Diferentemente do cão, o gato doméstico se mostra semelhante com duas espécies de felinos selvagens, o Felis silvestres catus e o Felis silvestres líbyca, pelas suas semelhanças anatômicas, bioquímicas e cariotípicas. 

Devido a domesticação recente, esses animais se encontram em situações estressantes rotineiramente e o estresse, segundo Dhabhar e McEwen (1996), desencadeia um significante e persistente aumento no número de leucócitos em reações de hipersensibilidade tardia. 

Em condições normais, o cortisol é secretado dentro de cinco minutos após elevação da concentração sérica do ACTH (WHITLEY et al, 1994), que se une aos receptores ligados à adenilatociclase, estimulando a formação do segundo mensageiro cAMP. 

Assim, o metabolismo celular das adrenais aumenta, o colesterol é captado a partir do plasma e a síntese e a liberação de cortisol são intensificadas (GREKIN, 1986).

A secreção diária de cortisol caracteriza-se pela atividade aumentada nas primeiras horas da manhã e inatividade nas últimas horas da noite, perfazendo um ritmo circadiano (GREKIN, 1986; Di RIO et al, 1994), que pode sofrer influência do sono, da alimentação, da escuridão, da luminosidade (YOUNG e BERMES, 1994) e do estresse (HUIZENGA et al, 1998).

A avaliação dos níveis circulantes de glicocorticóides, especialmente do cortisol em mamíferos, é útil no diagnóstico de distúrbios adrenocorticais e de estresse. 

O cortisol pode ser mensurado diretamente no plasma ou no soro pelos métodos de colorimetria (LIDDLE, 1974), radioimunoensaio (RIA), fluorimetria e ligação competitiva com proteínas. Os corticosteróides sintéticos não afetam os resultados obtidos por esses métodos (DUNCAN e PRASSE, 1982).

Estudo dos níveis de cortisol fecal 

Para avaliar os níveis de cortisol em gatos foi realizado o presente estudo. Com a finalidade de evitar o estresse de coleta devido à contenção, optou-se por quantificar o cortisol presente nas fezes dos animais utilizando os métodos radioimunoensaio (RIE) e enzimaimunoensaio (EIE).

Para isso foi eleito um lar urbano comum sem aplicação das Técnicas MEMO e os cinco pilares (Ellis et al 2013) de modo que os gatos pudessem ser observados de perto e as coletas fecais frescas obtidas imediatamente após o ato de defecação. Importante relatar que no período do estudo nenhuma intervenção ocorreu para garantir confiabilidade das amostras.

As coletas foram realizadas em quatro momentos pontuais após observada alteração comportamental dos felinos. O lar inicialmente habitado por dois felinos, ambos com um ano e castrados conviviam harmoniosamente em um ambiente monótono.

Porém, foi adotado um filhote de 60 dias e, por falta de conhecimento, sua apresentação foi repentina, gerando o primeiro desconforto pontual. Esse estresse foi considerado importante para coleta da primeira amostra dos felinos 1, 2 e 3. As amostras recolhidas foram armazenadas a -10,5ºC (medidas pelo termômetro digital infravermelho da Raytek).

A segunda coleta de cinco amostras foi realizada no momento da chegada de outros filhotes, também com 60 dias, resgatados e isolados por 40 dias para realização de exames clínicos e adaptação territorial. Mesmo assim, os gatos que já viviam no ambiente demonstraram comportamentos agonísticos devido a alteração dos odores.

A liberação dos filhotes foi feita de forma gradativa cerca de dois meses depois, conforme os habitantes anteriores permitiam a presença deles no mesmo local, sem demonstrar comportamentos aversivos. Foi realizada a coleta da terceira amostra nesse momento.

Gradativamente o ambiente foi adequado aos cinco pilares, bem como número de recursos, incluindo local seguro, alimentação, água, arranhadores e banheiros, bem como uma rotina diária estruturada em horários crepusculares com brincadeiras individuais ativas por 30 minutos. 

Também foi associado music for cats nesses momentos e, para finalizar, oferecido alimento úmido de alta valência emocional como recompensa positiva.

Com a aplicação dos cinco pilares completa, aguardou-se cerca de um mês para coleta da quarta amostra. 

Após finalizadas as coletas, foi acionado o laboratório Pesquisas Hormonais que instruiu sobre o envio das amostras de forma adequada e realizou o RIE e EIE para extração de glicocorticóides.

Resultados

É de conhecimento literário que a introdução não estruturada pode desencadear estresse e desconforto nos felinos, isso foi observado nas duas primeiras amostras, que apresentaram nível de cortisol alto já esperado pela situação de adaptação a qual os gatos foram submetidos.

A terceira amostra foi coletada no início das adaptações aos cinco pilares e os resultados mostraram que, com a adequação completa aos cinco pilares, os felinos diminuíram drasticamente os níveis de cortisol fecal, confirmando que a aplicação das orientações e respeito nas interações por parte dos tutores melhora o bem-estar felino. 

Também foi possível notar que, em comparação da primeira e segunda introdução, os níveis de cortisol dos felinos 1 e 2 foram menores. O felino 1 diminuiu o cortisol de 98,04 para 91,72 pg/ml, enquanto o felino 2 de 112,08 para 110,08 pg/ml.

Já a terceira e quarta coleta foram realizadas após aplicação completa dos cinco pilares. Nelas todos os animais diminuíram seus níveis de cortisol, provando que quanto maior o cuidado com a espécie, melhor sua qualidade de vida. 

Enriquecimento ambiental e cortisol fecal em gatos
Gráfico 1: Níveis de cortisol fecal obtidos pelo método de enzimaimunoensaio
Enriquecimento ambiental e cortisol fecal em gatos
Gráfico 2: Análise estatística nos modelos Gaussiana e T-Student mostrando o declínio dos níveis médios de cortisol fecal dos cinco felinos corrigindo possíveis margem de erros

Conclusão 

O objetivo deste trabalho foi mostrar que mensurar o cortisol fecal após aplicar os cinco pilares é possível e pode ser uma tendência para avaliar o bem-estar em gatos domésticos. 

Dessa forma, o estudo pode ser considerado uma nova tendência na forma de estudar o comportamento felino, lançando ideias para novas pesquisas. 

É imprescindível conhecer as necessidades dos gatos e oferecer todo aporte necessário nos lares domésticos para suprir as demandas cognitivas e comportamentais. 

Com todas as características felinas respeitadas e aplicadas técnicas que diminuem o estresse, foi possível notar diminuição expressiva na mensuração de cortisol fecal, indicado em literatura como um hormônio atrelado ao bem-estar.

Escrita por Julyenne Christynne Escrivani Frasnelli, médica-veterinária cat friendly pelo AAFP

Confira o artigo completo “Enriquecimento ambiental e cortisol fecal em gatos” na íntegra e sem custo, acessando a página 40 da edição de janeiro (nº 317) da Revista Cães e Gatos.