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Manejo da hérnia umbilical em cães e gatos: o que precisa ser avaliado

Entenda quando a condição exige cirurgia e quais fatores influenciam a conduta do médico-veterinário

Manejo da hérnia umbilical em cães e gatos: o que precisa ser avaliado
Por Rebecca Vettore
16 de janeiro de 2026
Última atualização: 16/01/2026 - 09:48

A hérnia umbilical, com certeza, é uma alteração congênita frequente na rotina cirúrgica de pequenos animais, que exige atenção criteriosa desde o diagnóstico até o pós-operatório. 

Embora muitos casos apresentem evolução benigna, a condição pode se transformar em emergência quando há encarceramento ou estrangulamento do conteúdo herniário.

Segundo Karin Rinaldi Santos Batista, médica-veterinária que atua no setor de cirurgia dos hospitais do Grupo Pet Care e possui pós-graduação em Oncologia aplicada à Medicina Veterinária pela Universidade Anhembi Morumbi, a incidência dessa afecção ainda é pouco documentada na literatura veterinária, especialmente em felinos.

Em cães, a ocorrência estimada varia entre 0,5% e 2% da população, enquanto em gatos é considerada rara, com relatos inferiores a 0,5%. 

“A forma congênita é a mais comum e está relacionada à falha no fechamento completo da parede abdominal na região do cordão umbilical, sendo considerada de origem hereditária e poligênica”, conta Karin. 

As causas adquiridas são incomuns, mas podem ocorrer em situações específicas, como tração excessiva do cordão durante o parto ou no período de cicatrização, processos infecciosos do coto umbilical e traumas abdominais. Independentemente da origem, a diferenciação clínica adequada é essencial para a definição da conduta.

De acordo com Karin, as hérnias congênitas tendem a surgir nas primeiras semanas de vida, manifestando-se como aumento de volume subcutâneo, geralmente macio e indolor. 

“Em alguns pacientes, o crescimento é discreto no início, tornando-se mais evidente com o aumento da pressão intra-abdominal ao longo do desenvolvimento. Já o histórico de trauma abdominal pode auxiliar na suspeita de hérnias adquiridas”, explica a médica-veterinária. 

Ainda segundo a cirurgiã, a avaliação deve considerar a redutibilidade, a presença de dor à palpação, o material herniário e sinais clínicos associados a maior risco de complicações. 

Hérnias redutíveis permitem o retorno do conteúdo à cavidade abdominal com leve pressão local, enquanto as irredutíveis apresentam maior chance de encarceramento, sobretudo quando envolvem alças intestinais.

Riscos e complicações associadas

Nos casos de encarceramento, o material herniado tende a apresentar consistência mais firme, dor local e, em algumas situações, acúmulo de líquido. 

Com a progressão para estrangulamento, ocorre o comprometimento da vascularização do órgão envolvido, podendo resultar em necrose tecidual, peritonite, sepse e óbito.

“Entre os sinais sistêmicos que merecem atenção estão dor abdominal, vômitos, anorexia, letargia, distensão abdominal e disquesia. A evolução rápida desses quadros reforça a importância do reconhecimento precoce e da intervenção cirúrgica oportuna”, diz Karin. 

Diagnóstico clínico e por imagem

A avaliação clínica continua sendo o principal parâmetro diagnóstico, levando em conta a idade de aparecimento, o crescimento progressivo do volume, a sensibilidade à palpação e alterações inflamatórias locais. 

A palpação da região umbilical permite identificar o defeito da parede abdominal e levantar suspeitas quanto ao material envolvido.

“Exames de imagem, como ultrassonografia e radiografia abdominal, desempenham papel complementar importante, especialmente na identificação do conteúdo herniário e na exclusão de diagnósticos diferenciais, como abscessos, hematomas e neoplasias”, explica a médica-veterinária. 

Manejo da hérnia umbilical em cães e gatos: o que precisa ser avaliado
Mesmo com poucas ocorrências, é preciso ficar atento aos sintomas da hérnia umbilical (Foto: Reprodução)

Indicação cirúrgica e cuidados pós-operatórios

A correção do problema está diretamente relacionada ao risco de complicações, à presença de dor e a situações de emergência. 

“Hérnias com diâmetro superior a 2 cm, irredutíveis, dolorosas, com conteúdo visceral além do omento ou que apresentam aumento progressivo configuram indicações claras de intervenção”, diz Karin. 

Na ausência de sinais imediatos de risco, a cirurgia pode ser programada caso a alteração persista após os seis meses de idade, preferencialmente associada à castração eletiva. 

De modo geral, o procedimento pode ser realizado na idade adulta, respeitando variações conforme raça e porte do paciente.

A técnica mais utilizada consiste no fechamento primário do defeito da parede abdominal após o reposicionamento do conteúdo herniado. 

Quando necessário, realiza-se a ressecção do saco herniário, seguida da identificação do anel herniário e do desbridamento dos bordos. Em situações de tensão excessiva, incisões relaxantes na fáscia do músculo reto abdominal podem ser indicadas.

“Em quadros mais complexos, como grandes defeitos, fibrose intensa ou recidiva, pode ser considerado o uso de tela cirúrgica inabsorvível, desde que não haja infecção local ou peritonite séptica”, esclarece a médica-veterinária.

No pós-operatório, a monitorização deve incluir sinais de dor, formação de seroma, edema, secreção purulenta, deiscência de sutura e aumento de volume firme na região operada. 

Embora complicações sejam incomuns, a orientação adequada aos responsáveis é fundamental para a identificação precoce de alterações e para o sucesso do tratamento.

Manejo da hérnia umbilical em cães e gatos: o que precisa ser avaliado
Após a realização dos exames é tomada a decisão de seguir ou não com a cirurgia (Foto: Reprodução)

FAQ sobre manejo da hérnia umbilical

Toda hérnia umbilical precisa de correção cirúrgica imediata?

Não. A indicação depende do tamanho, da redutibilidade, da presença de dor e do conteúdo herniário. Casos sem risco imediato podem ser acompanhados e corrigidos de forma eletiva.

Quais sinais indicam risco de emergência?

Perda da redutibilidade, dor intensa à palpação, aumento súbito do volume local e sinais sistêmicos, como vômitos, anorexia e dor abdominal, sugerem encarceramento ou estrangulamento.

O uso de tela cirúrgica é sempre indicado?

Não. A tela é reservada para situações específicas, como grandes defeitos ou recidivas, e deve ser evitada na presença de infecção local ou peritonite séptica.